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Fecha de Creación (Inicio - Fin)

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O QUE ERA E O QUE SOU, É O QUE SEMPRE SEREI

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Mc 13, 24-32


CONTEXTO

Estamos no capítulo 13 de Marcos, dedicado todo ele ao discurso escatológico. Este capítulo faz de ponte entre a vida de Jesus e a Paixão. Os três sinópticos relatam um discurso parecido, o qual faz-nos supor que algo tem a ver com o Jesus histórico. Mas as diferenças entre eles são tão grandes que pressupõem também uma elaboração da primeira comunidade. É impossível saber até que ponto Jesus fez suas estas ideias. No evangelho fala-se do Reino de Deus ao mesmo tempo como futuro e como presente...


EXPLICAÇÃO

Estamos diante de uma maneira de falar que nada nos diz hoje. Mas se prescindirmos da apocalíptica, deixamos de fora da nossa consideração uma parte nada desprezível da Escritura, tanto do AT como do NT. Apenas com a ajuda da exegese podemos abordar estes temas. O que dizem literalmente não faz sentido para nós, mas o que pretendem dizer, decifrando a linguagem, pode clarificar-nos muitas coisas.

A linguagem apocalíptica e escatológica corresponde a um modo mítico de ver o mundo, a Deus e ao homem. Tanto no AT como no NT, o Povo de Deus está virado para o futuro. Esta atitude distingue-o dos povos circundantes fechados na contínua repetição dos ciclos naturais. Israel encontra-se sempre em tensão para a salvação que há-de vir. Desde Abraão, a quem Deus diz: «sai da tua terra», passando pelo Êxodo para a terra prometida; e terminando na espera do Messias, Israel viveu sempre com a esperança de algo melhor, que Deus lhe haveria de dar.

Imediatamente se tomou consciência de que teria de haver uma salvação definitiva. Os profetas foram os encarregados de manter viva esta expectativa de Salvação total. No princípio, o dia dessa salvação deveria ser um dia de alegria, de felicidade, de luz; mas por causa das infidelidades do povo, os profetas começaram a anunciá-lo como um dia de sofrimento, de trevas para a maioria dos homens que não faz caso de Deus. Será o dia de Yahvé (intervenção de Deus para julgar) no qual castigará aos infiéis e salvará um resto. Tratava-se de ver o futuro como critério de valorização e juízo do presente.

A apocalíptica é uma atitude vital e um género literário. A palavra em grego significa desvelar. Pretende perscrutar o futuro partindo da Palavra de Deus. Nasce nos ambientes sapienciais e descende do profetismo.

Desenvolve uma visão pessimista do mundo, que não tem remédio; por isso, tem de ser destruído e substituído por um outro de uma nova criação. Convida, não a mudar o mundo, mas a fugir dele. O mundo futuro não terá qualquer relação com o presente.

O objetivo é animar o povo para que em tempo de crise aguente a enxurrada até que chegue o dia de Yahvé. O resto que se conservar fiel, reinará com Ele. Todos os demais serão aniquilados.

Uma variação desta conceção é o milenarismo, que defende um reinado terreno de Deus durante um período de tempo limitado (mil anos) no qual tudo será felicidade; isso sim, apenas para os eleitos.

Escatologia procede da palavra grega «eschaton» que significa «o último». A sua origem é também a Palavra de Deus e o seu objetivo, descobrir o que sucederá ao final dos tempos, não por curiosidade, mas com a intenção de aumentar a confiança. O futuro está nas mãos de Deus, mas esse futuro chegará como progresso de presente, que também está nas mãos de Deus, e é apesar de tudo positivo.

Este mundo não será consumido mas consumado. Deus reserva uma plenitude de sentido para a criação. Deus salvará um dia definitivamente, mas essa salvação já começou aqui e agora.

A referência aos tempos finais dos Evangelhos, não é apocalíptica, mas escatológica, ainda que nos confunda o facto de que o Novo Testamento use a linguagem apocalíptica, porque é muito sugestiva e chama a atenção. Um dos feitos da apocalíptica foi enriquecer a linguagem religiosa com uma multidão de símbolos e imagens. Os evangelistas, não puderam livrar-se desta mentalidade apocalíptica, muito desenvolvida naquela época.


APLICAÇÃO

Com demasiada frequência se fez um mau uso desta temática. Parece que é uma tentação constante o acudir ao juízo final, para obrigar as pessoas a que se comportem como Deus manda. Em todas as épocas proliferaram os milenarismos de todos os tipos; inclusive no nosso tempo pregaram-se calamidades como castigo de Deus porque os seres humanos não somos como deveríamos ser.

A experiência da morte obriga-nos a unir tempo e eternidade, contingência e absoluto, o divino e o terreno, céu e terra.

Hoje devemos interpretar a realidade, à luz dos novos conhecimentos que temos dela. No final do relato da criação, Deus «viu tudo o que tinha feito, e era muito bom». É ridículo pensar que a criação saiu mal a Deus e que agora tem de a recuperar de alguma maneira. Mais ridículo ainda é crer que o homem pode malograr a criação de Deus.

Talvez o que teríamos de fazer, seria deixar-nos de especulações sobre como será o mais além e tomar a responsabilidade que nos toca na marcha do presente.

Para a escatologia, Deus é o dono absoluto do universo e da história. O homem pode malograr a criação, mas não pode voltar a orientá-la. Só Deus a pode salvar.

Ao superar a ideia do deus intervencionista, é-nos colocado um dilema insuperável. Por um lado sabemos que Deus não tem passado nem futuro; que não está no tempo nem no espaço mas na eternidade. Por outro lado, o homem não pode entender nada que não esteja no espaço e no tempo. Meter a Deus no tempo para o poder entender é um disparate maiúsculo. Por outro lado, retirar o ser humano do tempo e do espaço, é desconjuntá-lo como criatura.

No tempo de Jesus acreditava-se que essa intervenção definitiva seria eminente. Neste ambiente desenvolve-se a pregação de João Baptista e de Jesus. Também na primeira comunidade cristã se viveu esta espera da chegada da Parusia. Somente nos últimos escritos do Novo Testamento é já patente uma mudança de atitude. Ao não chegar o fim, começa-se a viver a tensão entre a espera do fim e a necessidade de se preocupar com a vida presente.

Talvez hoje estejamos em melhores condições para entender as imagens da escatologia, em relação às outras épocas. Até há muito pouco tempo, a história era exclusivamente coisa do passado. Nos nossos dias parece que descobrimos a importância que tem essa história não apenas para o nosso presente, como também para o nosso futuro. O ser humano considera-se fruto de um passado; faz o seu percurso no presente e encaminha-se para o futuro. A escatologia está hoje implícita na maneira de entender a existência humana, mas trata-se do "último" dentro da marcha do mundo, não para além dele.

Deus não tem de atuar para ser justo nem agora, nem num hipotético último dia. Deus não faz justiça, Ele é justiça. Toda a ação, seja boa, seja má, leva em si mesmo o prémio ou o castigo, não se necessita nenhuma ação posterior de Deus.

Diante de Deus tudo é justo em cada momento. Não faz sentido ameaçar com a ira de Deus. O triunfo do mal é sempre aparente.

Esta melhor compreensão da maneira de atuar (não atuar) de Deus na história, torna supérfluas as imagens espetaculares sobre o "eschaton", mas obriga a uma reflexão sobre a importância que o ser humano tem à hora de planificar o seu futuro.

Hoje sabemos que o tempo e o espaço são produtos mentais, extraídos da experiência de um mundo terreno. Que sentido pode ter o falar do tempo e espaço para além do material? Falar de um "lugar" (céu ou inferno) para além deste mundo, apenas pode ter um sentido simbólico. Falar de um "dia de juízo", onde não pode dar-se nem o tempo nem o espaço, é um contrassentido. Não há inconveniente em continuar a empregar essa linguagem, mas sem esquecer que se trata de uma linguagem simbólica e não de realidades objetivas.

 

Meditação-Contemplação

 

Jesus diz-nos para aprendermos com a figueira.

Nos ramos que começam a mover-se na primavera,

Temos que adivinhar os figos futuros.

Em qualquer fragmento da realidade está Deus.

......

 

A realidade que todos vemos por igual

Está a dizer coisas distintas a cada um.

O ser humano tem de aprender a ver

Muito para além do que entra pelos olhos.

......

 

Há quatro mil anos, os orientais descobriram

Que a realidade que vemos, não é mais do que aparência.

A verdadeira realidade há que descobri-la

Para além e apesar do que vemos e ouvimos.

 

Fray Marcos

Traducción de Rui Pedro Vasconcelos

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