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OS NOSSOS ESCÂNDALOS

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Jesus mostra aos discípulos que tudo o que é positivo, inclusive o que é feito fora do grupo dos discípulos, é trabalho pelo Reino.

 

Mc 9, 38-48

Este fragmento do Evangelho de Marcos é parte do mesmo conjunto que lemos no domingo passado, e recolhe diversos ensinamentos de Jesus, agrupados num só discurso:

9:36 – Denúncia contra aquele que expulsa demónios mas "não é dos nossos"

9:39 – Jesus defende-o

Está a nosso favor, ainda que não seja "dos nossos"

Até dar um copo de água é trabalhar pelo Reino.

9:42 – Não escandalizeis aos pequenos

Se algo é motivo de escândalo, renunciai a isso.

Vemos que a última secção (vs. 42-45) está aqui colocada um pouco artificialmente, sem dúvida de outro contexto, mas encaixa suficientemente na mensagem dirigida aos discípulos, no que se refere à sua obrigação, mais que a dos demais, de servir ao Reino sem desculpas.

O contexto global é sem dúvida a resposta de Jesus às vãs ambições dos discípulos: não simplesmente discutiram sobre quem seria o mais importante, como sentiram inveja de outros que, fora do grupo, faziam o bem em nome de Jesus. Jesus mostra-lhes que tudo o que é positivo, inclusive o que é feito fora do grupo de discípulos, é trabalho pelo Reino, até o simples facto de dar um copo de água, e mostra-lhes que o grupo dos discípulos tem maior obrigação a um seguimento radical.

Há-que matizar algumas expressões do texto, para as entender bem. Em primeiro lugar, surge aqui uma característica muito própria de Marcos: «Jesus e os seus discípulos». Marcos é o evangelista que mais sublinha esta forte união. Jesus e os seus discípulos são, como grupo, protagonistas do Evangelho. O sentido de corpo, de grupo com Jesus, que os discípulos têm, pode inclusive tornar-se excessivamente exclusivo.

Em segundo lugar, as expressões de condenação contra o escândalo são retiradas do A. T., especialmente de Isaías. São as expressões correntes usadas em Israel para expressar a perdição. Devem usar-se portanto como símbolos plásticos da rejeição de Deus, não para descrições do mais além.

 

Reflexão

O texto oferece-nos diversos temas de reflexão, independentes entre si, que podem unir-se (quiçá um pouco artificialmente) num só tema.

O primeiro tema é que Jesus admite como trabalho pelo reino o que realmente o é, ainda que quem o realize não pertença expressamente ao grupo de Jesus e dos discípulos. Esta interpretação vem confirmada pela presença do texto de Números, que tem a mesma leitura. Há em Números uma frase muito característica, posta na boca de Moisés: «Estás ciumento por minha causa? Oxalá que todo o povo fosse profeta e recebesse o espírito do Senhor!»

Não é portante próprio de Jesus proclamar-se como caminho exclusivo. É certo que o Espírito de Deus é quem trabalha em tudo o que de bom existe. É certo que Jesus encarna a plenitude desse Espírito. Mas isto não leva a Jesus a monopolizar a função. O «bom espírito» alegra-se da presença de libertação em qualquer lugar onde a encontre, inclusive se se der fora do círculo dos que expressamente seguem a Jesus.

Não é por acaso que a atividade do «intruso» seja expulsar demónios. Na Escritura e nos Evangelhos, a possessão por um espírito imundo é uma expressão máxima da escravidão, mais execrável ainda que o pecado, já que de um modo ainda mais claro que o pecado, aquela não é cometida mas é padecida.

Libertar-se disso é uma ação de Deus, e Jesus o faz repetidamente mostrando que Ele é a presença do Deus libertador. O facto de que outros, em nome de Jesus mas fora do grupo dos seus discípulos, sejam também presença do Deus libertador, é sem dúvida uma formulação teológica muito importante (e muito atual).

O segundo tema vem representado pelo verso «Aquele que vos der de beber um copo de água por seguirdes ao Messias, asseguro-vos que não ficará sem recompensa.»

Tendemos facilmente a identificar a mensagem no contexto do «a mim mo fizestes» da parábola do juízo final. É correto, mas no contexto atual significa outra coisa: trata-se de valorizar positivamente tudo o que se faz por Jesus e pelos seus seguidores, ainda que não seja a adesão plena senão algo tão simples como dar um copo de água.

De novo, a pertença ao Reino não se faz com parâmetros exclusivos mas inclusivos: não se rejeita por não estar completamente dentro, mas aprecia-se tudo o que signifique uma aproximação, por mínima que pareça. As consequências a retirar disto seriam semelhantes às do tema anterior.

O terceiro tema é o do escândalo. O tema é a gravidade de escandalizar aos pequenos, de qualquer tipo de pequenos (as crianças são um exemplo de «os mais pequenos»). Especifica-se o escândalo destes 'pequenos que creem (em Jesus)'. Surge pois na mesma linha do espírito de Jesus: não excluir, obrigar, reprimir... mas fomentar, semear, alimentar, especialmente a respeito dos mais pequenos, os de fé mais débil, os que vão acreditando em Jesus.

Chama a atenção a gravidade das expressões com as quais se especifica o preceito. Sabemos que estas expressões paradoxais são muito do gosto de Jesus, que as usa para enfatizar a importância da mensagem. Isto está presente nas matizes surpreendentes de muitas parábolas e, quiçá de maneira suprema no dito do camelo e do buraco da agulha para significar o perigo da riqueza.

Mas, entendendo que estas são exagerações enfáticas, há que manter que são utilizadas por Jesus. O significado é sem dúvida a radicalidade com que Jesus entende a urgência de aceitar o Reino, o risco da pessoa humana preferir outros critérios e valores que não levam a salvar a vida.

No contexto deste capítulo 9 de Marcos, todo isto é uma grande catequese dirigida aos discípulos para inverter os seus critérios de messianismo mundano. Jesus anuncia-lhes a Paixão; eles continuam a falar de quem será o mais importante. Eles querem impedir o bem porque quem o faz não pertence ao seu grupo; Jesus reprova a sua atitude porque nasce do mesmo mal interior, o considerar-se importantes como sendo os únicos depositários da acção de Deus.

E termina a mostrar com dureza a urgência de que os que seguem expressamente a Jesus tomem uma opção radical, especialmente porque da sua atuação, da pureza da sua intenção e da radicalidade do seu seguimento, dependerá a conversão ou o escândalo dos demais.

 

Para a nossa oração

Uma vez mais, sentimo-nos esplendidamente retratados nos discípulos. Uma vez mais, Jesus deteta uma das tentações típicas das pessoas religiosas, enquanto indivíduos e enquanto coletividade. Mas nesta altura com a agravante da radicalidade com que Jesus nos interpela.

É de considerar que Jesus se mostra sempre acolhedor e paciente com todos, e que isto se acentua significativamente com os mais necessitados, por exemplo os pecadores, e que no entanto mostra-se terminante, condenatório e por vezes violento com dois grupos de pessoas: os chefes ou doutores de Israel e os seus próprios discípulos.

Ainda que com uma gravidade diversa e com resultados muito diferentes, esses dois grupos de pessoa a quem Jesus se dirige participam de atitudes semelhantes, das quais a mais importante é: a sua dureza de coração que lhes impede a conversão, e que se torna escândalo para as pessoas simples, que se afastam do Reino por sua causa.

Isto faz que Jesus se encha de indignação e profira frases violentas. As consequências no entanto são opostas: o grupo dos discípulos caminhará pouco a pouco para a conversão e servirão como testemunhos e mensageiros de Jesus, do Reino; enquanto os fariseus e os doutores se fecharão à palavra e afastarão de Jesus e do Reino aos demais.

Vimos já nos domingos anteriores como as situações históricas referidas por Marcos se convertem em exemplos, representam as situações e tentações dos crentes. Esta que hoje contemplamos coloca-nos diante da radicalidade do seguimento de Jesus a partir da perspetiva do escândalo.

O nosso seguimento de Jesus está chamado a ser testemunho: a nossa vida cristã é "para que o mundo acredite". Mas a outra face desta moeda é que o mundo deixará de acreditar em Jesus se o nosso testemunho não for válido. E muitos "pequenos" do mundo deixarão de ter acesso a Jesus e ao Reino pelo escândalo do nosso escasso seguimento.

Isto confere uma dimensão dramática à nossa pertença à Igreja. Recebemos o compromisso de ser sal, mas o sal pode perder o seu sabor e não valer mais senão para ser pisado.

Poderíamos estender-nos aqui em múltiplas considerações sobre os escândalos atuais da Igreja (de nós, a Igreja) que impedem a fé de muitos. A aliança com o poder, a ostentação da riqueza, o duplo serviço (a Deus e ao consumismo), a nossa consciência de "povo privilegiado", a nossa descarada preferência pelo dogmático sobre o serviço...

Mas já tratamos destes assuntos demasiadas vezes. Será melhor deixar que cada um de nós reflita sobre a nossa condição de chamados por Jesus, e a responsabilidade que contraímos perante o mundo.


Salmo 40

Oremos juntos ao Senhor, como Igreja; recitemos este salmo sentindo-nos a voz da Igreja que clama ao Senhor.

Invoquei o Senhor com toda a confiança;

Ele inclinou-se para mim e ouviu o meu clamor.

Tirou-me dum poço fatal, dum charco de lodo;

assentou os meus pés sobre a rocha

e deu firmeza aos meus passos.

Ele pôs nos meus lábios um cântico novo,

um hino de louvor ao nosso Deus.

Muitos, ao verem isto, hão-de comover-se,

hão-de pôr a sua confiança no Senhor.

Feliz o homem que confia no Senhor

e não se volta para os idólatras,

para os que seguem a mentira.

Grandes coisas fizeste por nós, Senhor, meu Deus;

não há ninguém igual a ti!

Quantas maravilhas e desígnios em nosso favor!

Quisera anunciá-los e proclamá-los,

mas são tantos que não se podem contar.

Não quiseste sacrifícios nem oblações,

mas abriste-me os ouvidos para escutar;

não pediste holocaustos nem vítimas.

Então eu disse: «Aqui estou!

No Livro da Lei está escrito

aquilo que devo fazer.»

Esse é o meu desejo, ó meu Deus;

a tua lei está dentro do meu coração.

Anunciei a tua justiça na grande assembleia;

Tu bem sabes, Senhor, que não fechei os meus lábios.

Não escondi a tua justiça no fundo do coração;

proclamei a tua fidelidade e a tua salvação.

Não ocultei à grande assembleia

a tua bondade e a tua verdade.

Senhor, não me recuses a tua ternura;

que a tua graça e a tua verdade me protejam sempre!

Males sem conta me cercam;

as minhas iniquidades caem sobre mim, sem que as possa ver!

São mais numerosas que os cabelos da minha cabeça;

por isso, o meu ânimo desfalece.

Senhor, vem em meu auxílio,

apressa-te em socorrer-me!

Fiquem confundidos e envergonhados

os que procuram tirar-me a vida.

Retrocedam e corem de vergonha

os que desejam a minha desgraça.

Fiquem atónitos e cheios de vergonha

os que troçam de mim.

Alegrem-se e exultem em ti todos os que te procuram.

Digam sem cessar os que desejam a tua salvação:

«O Senhor é grande!»

Eu, porém, sou pobre e desvalido:

Senhor, cuida de mim.

Tu és o meu auxílio e o meu libertador:

ó meu Deus, não tardes!

 

José Enrique Galarreta

Trad. Rui Vasconcelos

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